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Airf'Auga Carcasse JP
Três ponto
Metalurgia
Anemómetro
Desprezado, obscuro e espoliado
Depois da morte, elevado ás honras immortais
O término da questão social perante o tempo
Masturbus
Cântico Semi-Rami
Airf'Auga Carcasse Bronssi A5
Bronssi
Pumbra
Metempsicose Aptúndica
Airf'Auga Carcasse Violeta A5
THX
Letras Douradas
A Árvore do Poeta
Lorelei
Cássio
Airf'Auga Carcasse BG A5
Airf'Auga Carcasse Vénus A5
Venus of Kazabäika
DRAMA ESTÁTICO A DUAS DIMENSÕES
ou
A PARAFERNÁLIA DO DESOSSADO
Airf'Auga Carcasse BG Contos A5
Metalurgia
Juca Pimentel
Anemómetro
Ali vai ele,
o coito!
Ali vai ela,
a sombra!
Om os meus olhos negros de panos
de censos e fúteis enganos
o último take da tua enodora exctimada, lodora,
tútril, enxangue, ólida, quesh´ra, parfidean, lockia,
loucura.
Os macacos escapam do toque como pequenas maravilhas todas feitas
de pérola enrubescida pelo Sol que queima como um farol anunciando
a extrema loucura
que evapora os sentidos para os tornar pontuais
a ponto de serem ponto no meio do círculo
flutuante onde as mortes se amam.
Juca Pimentel
Os bons sentimentos não são boa musa...
Vai dar-se início à Arte. Vou tocar
Uma punheta!
Sorvo o teu odor como se fosse
um pincel pincel de formas bem augustas
e Agosto é o tempo de cobrir a ramagem
que verte orvalho e termos de esporas.
A tua esporra poderá ser bem vinda
se for a de ocasião e de termos
inequívocos e fortes como se fosses
a madrepérola do tempo em po po.
A fome que temos é grande
e assim aspiramos o odor do vazio.
Da noite...
A sonolência que te invade é toda feita de pérola
e assim aspiras o odor do vazio.
Da noite...
És a minha sombra volátil e suspensa.
Ternura antes de tempo, fútil, encomenda extraviada.
És a paixão do excremento,
súbtil, encomenda extraviada.
Longo eterno beijo na nuca entreaberta pelos
lábios semicerrados de sangue.
Vermelho o teu olhar e enfim sós.
Eu tu e o machado suspenso da gaiola em cima
do chinês.
Afinal o chinês é alemão.
Som de violinos são as vozes dos entes parentes
e crianças infantes de sagres preta fresca à noite
numa mesa de Bar verde. O Bar.
Tantas palavras e o que resta; a mortandade
do espasmo senil que gesticula perante mim,
em frente a mim,
acenando um cadáver isquesito
de contornos fáceis e previsíveis
mas perto da mãe Sol transexuada.
Quero-te e entanto não estás, pelo menos como
devias. És-me tão somente.
Como foste criar a sombra.
A eterna. A sombra majestosa do início da noite das
vinte e três horas e treze minutos no relógio cinco adiantado.
Analfos.
Clima ensurdecedor e pobre de ser
útil porque queima.
(Os teus ventres salientes são ensurdecedores)
Afinal o chinês alemão é alemã.
Mais violinos a comporem bela música para os meus ouvidos.
Acaso paraíso terá esta definição?
Lógicas em mim e de mim afora dentro de mim e sons e
violinos e chineses alemãs por implicação matemática, mas
aqui a matemática está a mais, as coisas deveriam ser
lógicas apenas por implicação, e instruendos
de instrumentos nas mãos, história, agonias talvez
do século III e turbinas com os cornos no chão, e
turquídeas ferozes sem o sentido correcto, e vales
a subir um escorpião todo feito de pénis e todo
implodindo-me na cara.
Um apenas som espera do outro lado do salão,
as mãos unem-se pela ponta dos dedos antes enfiados em
cetins de crosta, com as velas incendiadas nos cabelos
das Níneves que dançam.
Rostos de corda, notas nos dentes, Mozart nos regaços,
olhos nas súplicas... e cada vez mais
plurais em grupo de dois.
Longamente o teu olhar persegue-me
doce maravilha esta fuga de pernas no ar em cima
do cadafalso
veloz esta súplica que tende a sentir o infinito muito maior
do que o imaginado
longo olhar vazio cheio de cheias no país da eterna secura
funerais aguentam o meu corpo
cortejo imagem fútil esta a do cortejo que segue atrás.
Antes foi o tempo das misericórdias, vestes incendiadas do
desejo, antes foi o tempo das carícias nos ventres inexistentes
das orquestras, dos violinos.
Coisos. Luvas. Larvas. Ternas. Rouquidões.
Vejo as pessoas mas não as sinto. Quer dizer, sinto-as
de uma forma que julgo não ser perfeita, única,
ou pelo menos multicolor, sonora, completamente única.
Os toques fortuitos nos guarda-chuvas apenas me dizem
que chove na cabeça destas gentes de pénis murcho
em direcção ao trabalho.
Três ponto
Desprezado, obscuro e espoliado
Depois da morte, elevado ás honras immortais
O desprezo, a obscuridade e a espoliação do contemporâneo poderá ser a fonte da sua imortalidade. As honras poderão ser nada mais do que germes que minam a consciência, pois a elevam da categoria humana e assim a terminam. Homens elevados a Deuses são apenas falsos homens. As estátuas matam mais do que a fome.
Os novos olhos são-no eloquentemente,
com pontas de espasmos senis e febris e sonoros como um peixe.
Ânus transversais querem-se amenos e
aconchegados de medo.
Torna-se tudo reflexo e despojos verdes analfos
pela tempestade fora. O meu odor não é o teu.
E assim a realidade tomba de lado até tu desapareceres.
Porventura desconcertante?!
Dois melões e um pudim!
Que sensual esta mulher de dois melões e um pudim.
Passas, passas, olhas e não tens cheiro porque não te cheiro
porque passas, passas e apenas olhas.
De bom grado agarrava-te um peito e
o mostrava ás minhas gentes.
Um dos teus peitos apenas seria um, mais um,
mas um cheio de todo, todo cheio de toque,
todo tocado pelas minhas gentes de peito na mão,
com o teu peito na mão que seria uno e perfeito como o teu
outro peito.
E agarrava-te o teu peito menos um, um menos um
elevado ao infinito das minhas gentes austeras e
risonhas porque esperam algo de mim.
E eu dar-lhes-ia o teu peito zero.
Analfos.
Estonteante a tua sobriedade piedosa de Deusa.
Om os meus olhos são-no imperfeitamente,
e mamo-te como um desesperado.
Ontem aquela mulher era um anjo.
Ontem que foi ontem e será sempre ontem
na comodidade das ondas.
Tu deixas-me maluco.
Domingo de manhã.
Claro está que a meta morfose é
um paradigma que só a inteligência justifica e
demonstra. Um ocaso imenso de ficção.
E claro está que temos um censo fora da lógica,
e ilógica porque lemos e estamos imersos em céu azul dentro das cidades.
Antes do tempo.
Antes do tempo.
Blá-blá que te esfumas e partes como sempre fizés-te.
Terror no circuito.
Em frente a uma porta quase lá.
Em frente ao olho esquerdo em frente do buraco.
A tua fechadura é imensa.
Brasa e calor na face esquerda. A tua pele de água queima.
O teu mamilo é enorme, pujante, escuro pela luz da lâmpada,
eternamente esquerdo, dentes, dentes nele, dentes no
mamilo escuro pela luz da lâmpada, mandíbulas.
Saio, e afunilo o som dos meus passos, pequenos e a contratempo,
duros, sólidos, como gaitas de foles tão rápidamente cheios como vazios.
O dia não nasceu há muito, pelo que as ondas da multidão
tornam a rua um pequeno ribeiro sem peixes nem ostras
cheias de pérolas que um dia estarão nestas montras.
O meu reflexo esvaziado nos vidros destas montras assemelha-se a um pequeno riacho com peixes e ostras cheias de pérolas.
Vou comprar cigarros naquele café da esquina com mulher estilizada nela.
Vou também dizer adeus a essa mulher que dorme ainda entre
as rugas dos meus lençois.
-Mulher sólida, perpétua, que fazes café na manhã que é
ainda pequena coisa em breve majestosa mas pequena agora.
Tomo o café com pequenos goles. Sinto um cheio aqui dentro
do meu querer, um cheio grande e voluptuoso,
tão perto de se tornar tudo. O sono vai descendo à terra
como um pássaro gigante. Eleva-se dos meus pés um pequeno
pó quando me dirijo ao balcão e peço um maço de cigarros,
aquele ali, do lado direito, o primeiro da fila da direita, em
cima, não, o outro, sim, esse, obrigado.
Saio, e afunilo o som dos meus passos, pequenos e a contratempo,
duros , sólidos, como gaitas de foles tão rápidamente cheios como
vazios. Um breve olhar pelo meu pequeno mundo mostra-me
A minha pequena grandeza. Esta cidade poderia muito bem
um dia matar-me.
Comboio do mundo, súplica em uníssono sem acento,
rosa a florir no sapato, de solas desfeitas, paredes vertidas na horizontal,
medíocre cantilena de sangue.
Os medos fundem-se aqui,
como estamos livres do mundo e de nós, arriba,
frente para a frente que se quer vício e não rotina,
e amenas obras nos leitos, resíduos de mim.
Temos um olho demasiado fechado, os outros atiram pedras
e nós continuamos com um olho demasiado ranhoso.
Ala para a frente que se faz tarde.
Acima os cumes acima que estão longe, estas subidas e
pantominas nos vales, estes fusíveis da unidade quebrada.
Som, movimento, gargalhadas, uma porta que se fecha, não, não,
vozes completamente desconhecidas, suave embalo, a frente está
atrás de mim, nas minhas costas, e eu não a vejo, vejo
apenas o que já esteve à minha frente mas está agora atrás de mim,
mas de frente para mim, porque eu sigo de costas voltadas para
a frente a para algumas gargalhadas, ela está a pensar em... sei lá,
sente, amigo, achas que vou cair?
Cheiro a presunção.
As hormonas explodem, seios tesos, pissa que apetece morder,
cona sonora de vento.
Treze vozes que se juntam aqui.
Estão aqui. Sentadas pela estrada fora e amenas.
Antes volúvel que vulva aparente.
Política e ciência: o mito do desespero.
Analfo este som.
Vibrante este som.
Inteligência aberta na carótida.
Fosso no ardil do cão com cio,
funesta majestade de sombras feita e impelida.
O mundo está de antemão fodido.
E eu à cabeça!
Linda mulher de cornos dilacerados, vestes de sombra os passos atrás marcados, atrás de ti.
Tens os olhos incendiados por uma qualquer perífrase do espírito, sanguessuga da mente,
e volátil és na dispersão, meu cruel suicídio.
Nas tuas mãos os cantos pareciam diurnos, para se anteverem no
escuro mais tarde, olhos, em brasa.
Ai a mente de quem é um e não dois e meio.
Linda visionária do tempo.
As armas ao alto dão-se nas datas de festa, na data de dias enormes
que se seguem a esta noite, se os houver.
Cercadura
O romance trepa pelas
paredes como uma andorinha ferida
teimando o seu voo.
Funde-se com anemia
na alma das gentes de espírito
que trepam pelas paredes como doidos.
Os hediondos estéticos assumem
o seu amor por aquilo que excita,
consomem as entranhas em jantares de pompa,
e fornicam a arte por amor ao Deus.
Regular a beleza é cercar os sentidos.
E o romance trepa os sentidos
com paredes hediondas.
Crer na Beleza é morrer.
Os Amantes dispersam-se pelos campos nus
de vergonha.
Num voo rasante cortam
as amarras que os prende ao sol pedra,
beijam-se num atónito sentido de si,
a estética prende-os ao sonho de outro.
É tempo de se espetar as agulhas
no âmago do querer,
inflamar o sangue morto
com a alucinação do romance.
Os olhos turvos animam-se perante
a sua própria imagem,
olhos que querem o fundo de si,
olhos que se amam como se fossem únicos.
E tramas de conas, pissas.
Sombras voláteis.
Batem-se as portas
num tremer constante de pó.
Quando o trono,
bandeira encenada,
é vertido em súplicas a três dimensões.
Pois quero que estas palavras queimem.
O habitante menos um
revolve a sua origem de homem-todo
para se sentir presença em rodopio.
Os tempos trocados
afirmam-no em dor.
Quando os hediondos plasmáticos
se fundem para tolher o passo do simples de espírito.
É sempre este tempo de penúria.
O cancro foge da mente em forma de ondas.
O cancro é bem vindo quando é do próprio dia.
A sua maravilha e a dos cornos confundem-se
como sombras,
é deles o trono nos céus.
Como me apetece esbracejar o corpo,
dominá-lo no anti momento da sua desgraça
queda.
As cinzas queimam-se ao vento suave,
implodem os tronos que deixam para trás,
o seu tempo será o de anemia
e lógicas de fundos em brasa,
pernoitarão para sempre no mistério.
Como me apetece esbracejar o corpo,
atirá-lo no anti momento da sua desgraça
queda.
Coloco os cornos
todos os dias que me embelezo.
São bem belas estas astes que me encimam
a inteligência.
Por isso mesmo estou à vontade
para continuar a minha estupidez.
Quando se ama
é preciso estalar três vezes os dedos.
Pois o início é o tabu.
A não promessa como compromisso
maior.
O desvario.
Olhos nos dedos de morte.
Até se esgrimar a sensação
do fundo que submerge.
Não percebo bem o que digo
mas sinto-o demasiado.
Como de resto se pode
sentir tudo o que apenas
pertence ao desejo.
O Romance quando nasce
vem sacado de roubo.
Um tumulto de tronos no Hediondo.
As mulheres gostam deles nas orelhas,
para que se tornem
enfim quase belas,
pois não haverá maior enternecimento
do que o mistério.
Os seus beijos pálidos assemelham-se
a rasgos de heroísmo,
as suas cabeças tontas assemelham-se
a caralhos ao vento,
porcos quanto inocentes.
Como toda a gente que conheço.
Os hediondos estéticos são indomáveis,
e matam para o provar.
Líquido
O alheamento
nas trombas,
nos volúveis estados
de metalurgia,
encandeiam a posse
como se esta fosse para bem
longe,
para o fim da utopia
ou do fardo que dela cresce.
Essa utopia lenta,
tipo valsa de de fúnebre alento
com ondas de vermes que dançam
nas balaustradas do desencanto.
Essas vozes em
coro desarmonioso,
fausto e pobre
no mesmo sentido desabrido.
Se calasse
os tempos,
eles me diriam que nada mais podem
fazer
ou alhear
e que tudo não passa
de sombras,
novamente estas sombras
de olhos em furos de fome.
Tornozelos vazios.
Nas tuas eternidades que
se afastam,
que calam os membros,
que calam os tempos,
que calam as frontes,
as minhas,
as do ninguém,
eu despejo ácido e vibrações sonoras.
Não há perícia
que afronte estes mistérios.
As portas abertas deixam
passar apenas um vento vazio,
destituido de prática
e inerte no além corpo.
No meu além corpo em sangue.
Toro psicadélico.
Anulamento.
Entram estas
mulheres no perímetro
do meu fumo.
Mulheres anciãs,
com ventres cheios de
mistérios orgânicos que me
faltam,
que eu deixo para trás,
deixando-me elas para trás
quando se ausentam
na procura de um
outro espaço.
Metalurgia.
La ter gia
fonde de mental ka ess kas
La brume
et donc par le aeniman troissure
Toissence
La brume
Os panfletários
progridem o som
pelas pretuberâncias
que colocam nos
seus actos.
Amam-lhes as frequências.
Pom.
Sombras de mim mesmo.
Porque continuo meteoro fútil,
pobre,
meio animal de consolo,
que nada, mada sada,
nada, nada, vale.
Mas ao mesmo tempo,
vejo estes galos de
lenços na cabeça,
mestres da dança do arrepio,
estes benfazejos
da musicalidade
e da felicidade na terra,
e a deslocação é demasiado grande
para que não exista algo.
Algo por que valha a pena ser eu.
Onomatopeia
que prende os
tempos.
Bem sei que o argumento
por excelência
é o absurdo.
E este absurdo é o meu argumento.
Piano ventríloquo,
que te expandes por estas
paredes que recordam
o esquecimento de umas outras,
que alimentas
os mesmos alentos dos ventos d’além,
e baixas
agora a frequência até
esta se tornar
saltitante
apenas por existir,
és testemunha
do meu trono vazio.
Falo-me com todas as coisas que detesto.
Desço muito baixo para comprovar o
que sinto
sou.
- Eu, perante ti, transformo o sonho no seu próprio ocaso inevitável e profundo de turpor, que se escapa para logo se fundir como um escolho da mente, e no entanto será sempre a irrealização a ditar este sonho, esta volúpia que apenas existe na tua cabeça. Nada importa eu saber-me bela ou incandescente; tu não me realizas a potência que em mim sinto, não procrias o meu corpo de sensações irrecusáveis. São apenas velórios mais ou menos especiais, de figuras que colocás-te em mim, mas que eu não reflito, que se apoderaram de ti como se fossem minhas, mas em boa verdade não existem. Como se o papel onde escreves as tuas façanhas fosse de fraca qualidade e assim se detiorasse à mínima agrura atmosférica, ou à falta dessa agrura. Tudo se torna num ponto onde a máxima procura é ensimesmada, sem sentido, ou com um certo sentido que não é o meu, e mesmo que fosse eu o recusaria. Bem vês que a verdade é bem diferente do desejo que a sua procura desencadeia. E se assim não fosse, cá estariamos nós para que assim se tornasse.
- Muito bem, afasto-me.
O terrível desespero da saudade
O terrível desespero da saudade
Tremenda sonora partida do fundo para dentro
Quando todos os mistérios se fundem em sombra
E a morte espreita pelo canto do olho da morte
As súplicas errantes de quem tem um medo maior que as mãos
E faz a penúria tornar-se grande quando faz zumbido crescente
Quando a côr se desprende do tecto
E assinala a turva existência sem meios
Alas em busca de fome e proveito danoso
Funda escarpada que sobes pela nuca acima
E te esgueiras pela mão do condenado
Fútil como pérolas
Anátemas de juventude em sangue
Longos beijos te dou
Meu amor de longas carnes
E sons de púrpura em seda milenar
Ventos do fundo bem preciosos
Amálgamas de fetiche cornos no chão
Lambes-me a mão que me ergue o despudor
E tramas de conas enfileiradas por cima dos sentidos vazios em ti
Além do fim será sempre uma súplica
Ter o deus na fuça sempre a tremer perante o teu escalpe sagrado
O terrível desespero da continuação
Permanece em mim
Pelo tempo fora
Como se tratasse de um sino de fraude possuído
Entidade arbitrária
A alma pode ser um refugo mas continuará pálida em paralelo
Vezes em demasia pelo tempo fora
Um contemplar de outras razões que não a usam
Plurais de formas pouco definidas
Em solavancos de sonos entrecortados pelo medo
E tudo isto a sonhar alto enquanto a queda é eminente
Vamos morder o sono da mente
E tornear os dedos que se fecham
Fumar um estrondo metafísico porque meta inalcançável
Olhos de penumbra meio céleres e vagos
Deitados pelas encostas de declive suave
E duradouro
Dannar é um impossível
Tal como os números sem razão aparente
Dedos de fungos cheios mas solenes
Semeados em terrenos tão férteis como obscuros
Prevejo a minha queda como um farol
Prevejo a deusa dançante na minha mão que não é um bem
Apenas propriedade
Alto vazio
A escolha poderá muito bem um dia tornar-se impossível
Quando a irrealidade tombar e o meu nariz
Aquecer-se de encontro à penugem do teu sovaco
Admirávelmente de encontro a ti
As vezes que escapam ao sentir
Desabrochar no jardim de pedras
Aquelas que nem eu nem tu lá pôs
E fundos de moda fantasmas na luz
Sempre um desejo que se quer único na vertente do verdadeiro apocalipse
Que torneou o odor dos fins de tarde amenos
Chupados por deusas inconscientes e belas
Perfuradas por mancebos a contraluz
Lama perante a vergonha de ti
E turba de fome a cair aos pedaços
Inconsequentes os teus passos
Lume fome inalterado
As raivas são grandes se forem do próprio dia
Amar-te-ei então em dias alternados
Os terrenos da alma são breves passagens pelo cosmo, pedaços de inércia tão original como o pecado
Eser de mercúrio inflamado
Sono perpétuo te extingo a afinidade com o diabo
A solo de três quartos de nota
Breve majestade de erro
Súplica em fúria
Masturbus envolve-se na miséria
Pensa três vezes na morte
Um rodopio na presença de Deus
Castra-se no tempo e luta em demasia
Amas-me o tempo todo feito de caralho
Calabouço suspenso no âmago do teu terror
Longo e ameno franzir de olhos
Turvos como a noite de Inverno
Fria no passeio de pedras pequenas
Lagos afectos dentro de mim e apenas isso
Todo o tempo foi talvez um tempo de misericórdia
Miséria
A deshonra dos sentidos
Dá-se no campo da metaformose
Passadeira
Anatomia do golpe pérfido.
Na loucura que assombra o sentir simples,
e o transtorna na extrema placidez de um gemer de troncos,
mastodontes febris como a minha loucura,
ou como a minha amante só.
Nesta esquina de rua civilizada,
onde o pó não tem descanso,
onde as sofreguidões não têm descanso,
e rondam os passos como se fossem areia.
Presos.
Sentado à mesa que escolhi,
ou que me escolheu pois esteve sempre aqui à minha espera,
imóvel na sua plenitude diária,
verde na sua estética diária,
imutável,
testemunha da minha própria mobilidade de cobra.
Os corpos que se venderam passam por mim.
Aqueles que como eu também um dia
aparentaram essa mesma mobilidade,
e no entanto agora deixam-se estáticos,
mas em movimento,
nas suas viaturas blindadas.
O tempo transforma os corpos.
Deixará incólume o espírito.
Um sonho uma vez,
um sempre sonho.
Uma aparência uma vez,
um sempre nada.
São apenas os corpos a desejarem
outras metafísicas,
outras podridões de um outro quilate,
e a mente a ditar o seu rol de intrigas.
As suas clarabóias de anestesia,
inercial,
porque sempre a mesma.
A velhice será a única comprovação
daquilo que somos neste preciso momento.
As coisas serão as mesmas,
instalando-se apenas a preguiça
de esconder o que agora desejariam envergonhadamente que fossem.
E afinal de contas,
os corpos apenas passam honestos.
Nas têmporas
Do dia negro eu encontro repouso,
suicida mental de um
turpor maquiavélico,
sopro de penumbra em torno
da auréola mortal
que assombra,
fundo que pressente
o terror pelas mãos
de prece oculta.
Libertinagem.
Neste café de esquina
que assombra pelo desconhecido,
e é sombra que me
anula pela intensidade que se
esvazia,
esta mesmo que de mim
brota na parafernália.
Os homens que entram
com os líquidos oblíquos
nos rolamentos do seu andar,
e olham a sua refeição de Rei
antagónico e cru.
Cobradores de almas vazias,
com lixo a compor a
imagem da flor que
não tem dono,
que não é deles,
que não é minha.
Eles vão e voltam outros.
Planeamento.
Falha inacabada.
O que sei são apenas dúvidas,
alimentadas pelo embalo constante
das fisioterapias internas
que a mim próprio imponho.
Como cachimbadas de ópio semi-controladas
por heroína hedionda.
Um quanto nervo para
a progressão da pirueta,
uma quanta ferroada
para a travagem que se pretende súbita.
Um alento,
um desalento.
Um débil sim,
um forte não.
Ainda resta fazer a soma
destes processos todos.
Até quando?
Os transeuntes
atravessam-se plenamente,
vorazes,
mas cheios da calma
que o conhecer o seu presente
lhes dá.
O sarampo
cresce como se fosse pó inacabado
dos tempos tocados alados,
feridos nas têmporas da morte,
aquela que me é como amante hiper-perfeita,
a que me morreu.
Poema destravado
Não vou escrever para ti.
Baixam-se as asas
pelas rochas leves de água
em espuma quebrada
aos solavancos.
Tenho visões de
mares em rochas quebrados
e espuma em saltos
aproximando-se através do vidro.
Vejo as rochas e o
mar que surge em catarata
e a água se fende
na espuma que
salta.
Mas já as vi há tanto tempo
que já nem sequer sei como eram.
Já as vi há tento tempo
que se tornaram incómodas.
Porque o que transmito
não são recordações.
Este anemómetro tolo regula
o fundir,
o estranho metafísico,
porque sangue em sangue se forma,
é animal que geme
e vocifera o além possível
como um coxo,
e pumba,
cá treme o punho porque a mente se torna idiota.
Vou-me deixar
cair na lama,
e olhem que não sabem o que eu
sinto por ela!,
vou-me libertar no tijolo que em
mim mente,
pelas horas mortiças
que me encandeiam a mente
no ponto alto da minha fúria tão tesa..
Anemómetro adorado,
fúria de Alberin;
o turno da noite
que se esconde na
sombra,
que me lembra a desmembração
tipo série
em paralelo
com dois solavancos de preta.
Um olho
pelo outro sempre ficaria bem,
e apercebemo-nos sempre anemómetro
desta dúbia sensação de tudo
o que se diz ter a ver contigo
e do que falo é do
meu olho e o da preta.
Plêade dos povos,
a mestiça ronda-me os panos com o
seu braço louco de tom
e punha-me nela se fosse
tempo de sentir.
Ela é a tal da cor que
não existe,
a tal da cor que eu fabrico com
peles de várias mulheres
das quais retirei a luz
até ao negro.
Disforme pelos
cantos das paredes,
meio curva para
acompanhar o
som que enche os cantos
destas paredes,
com estas paredes
a serem paredes
e eu a lembrar-me delas porque
quero ser poeta,
e a merda é outra.
Não vou nada,
não tenho nada,
e as coisas não são assim
ou assado,
não são de uma maneira de puta,
nem ohs nem uis pois
a merda
é outra.
É outra!
Só não sei o que é.
Nem sei se é isto,
mas pôr o tempo
no papel é fodido.
Palavras para quê.
Não escrevi para ti.
Lamaa
Alama é sedooosa
Trem’o tempo numa onda
no labbirinto que lh’ aclara
a fronte diabo de Deusa.
As trantas divinas vão-lhe saciar
a fronte sedooosa de musa
tua mulher divinal medusa
tua virginal
mulher em fúria
campãnoola suave lamúria.
Nan tão pouco
surge belo o horror do só
pelo só estado de amourir
o lamento que turva com os oiros
frios lentos solenes nos dentes
que me pisam o corpo
na alma dura tão pura
na alma dura tão sua.
Alama é sedooosa
Trem’o tempo numa onda
no labbirinto que lh’ aclara
a fronte pura de Deusa.
XER
O término da questão social perante o tempo
Algum tempo é constante: a sua passagem mede-se por sub-intervalos iguais.
A aparência inflamava-lhe o corpo.
-Porquê que há tanto tempo não fodemos!
Ela, de olhos fechados, braço sobre a barriga, com as mãos a afagar a sua cintura.
-Não sei. Só que... apetece-me mas tenho muito sono. Tenho andado com muito sono.
Ele ouviu e prezou o seu tempo, e a loucura que o purificava ali, naquele momento.
-Queres tu dizer que não temos fodido porque tens sono – ergueu o punho bem alto enquanto desprezou acima de tudo o seu querer.
-Oh! Eu sei lá, não tenho uma razão para estar assim, pode-se estar e pronto,e eu, meu deus, quero um sonho mas não o tenho, enquanto tu, foste a bandeira majestosa que se enxovalhou e agora não interrompe sequer o meu ressonar. Ali, bem longe, estás tu, mancha de betume, greta de porta que não se fecha, torneira em forma de cigarro que tanto oscila como cai, e apenas tu estás lá. Mais ninguém. Querido, não há motivos para eu estar assim. Além disso, há os comprimidos.
Barrei-me todo no sucesso, enfim, completo, da minha futilidade.
Liquidei-me sem antes me acender até ao brilho da brasa. Penetrei-me todo. No coiro da vida. Velha teia que afunda a beleza. Um traço oblíquo permanecerá para todo o sempre em mim, marca da epopeia heróica de um homem pelos mares de Tchau Tchin.
Ela agora dorme. Ele, sonha acordado. Um dia será um belo esquecimento.
Masturbus
Cântico Semi-Rami
Querida Masturbação
do género humano amada pelo tempo e tempo
Que manual te expandes sem outro auxílio que as belas mãos
e assim te escondes na fricção das glandes
com os teus instrumentos no âmago da uretra
Mecânica é tua força quando exercida no buraco anal
de imensos objectos provocadores da eterna tumefacção
É a tua psicose a engrandecer-te
O doce roçar levíssimo roçar pelos genitais
na Piça que te é adorada
Nos tomates de tusa
Foste tu que te apoderaste de mim
e transbordaste a sólida e numérica fama
do jugo Homem enfim grande
e violenta é a tua face de fome
Anciã a tua génese de tromba larga pelo Homem fora
Das trombas humanas padecida
que é longo o caminho da tua escada espiral acima
até ao toque que apenas pressentes
Galdéria adorada
Os dedos são tua armadilha e o odor do teu ocaso
entranha-se-me nas vísceras dos membros
quando o choro é apenas multidão de espasmos
Fetiche da multidão
macerada pela porcaria dos dedos
lixo
mecanicismo psicológico de sexualidade
Tu que fazes erecções experimentais de prolongada inércia
O Homem enfim cadela anseia e foge
coito do pré fabricado
Com um coice desbravas a multidão de sexos e sonos
de seios fartos e coloridos até ao ínfimo grão de cor
que tem uma determinada frequência espectral
e coloniza o afagamento
Se fosses minha vibrava-te um golpe no cérebro
A válvula na uretra
Ponta afiada na glande
Água a jorros por ti adentro ó Piça desmezurada e podre
Ardo-te o pénis e o membro agora outro vai e vem
e sugas-me o ser com esse fluido quente que por mim entra
E ponta afiada no corte
Corte na piça e dela sai o Amor
Louco como um corte
Masturbus
és feito de perícia
Inicias o canto enquanto as outras dormem
Enfiaste pelos pedestais e congeminas maravilhas
nas enfermarias do desejo
Metes-me no cú esse halo eléctrico e transmites
a voltagem exacta do meu desmembramento
Cú de energia ansiã como eu
Morteiro
Hipocondríacos de todo o mundo,
acaso uma punheta vos serve,
isto é,
acaso uma punheta vos chega?
Aqui está o homem só,
benovolente com a sua própria miséria,
ou mulher,
o que brota o além como se
fosse hipnotismo,
do barato.
Metrelhadora.
Na sua fronte soturna
brota o anfíbio supremo,
o que maravilha o adeus,
o só anfíbio solar.
La Beria
Meu amor de longas vestes.
Encaixo-te os dentes com alicates
marchetados a diamantes.
Bronssi
Pumbra
My body despedaçado
anseia pela tua existência.
Leve suave brisa do mar.
Não te amo de uma maneira
vã,
não te quero na comodidade
do meu abraço.
Quero-te violenta nos sonhos do amor.
Na Luz que incendeia os
olhos que choram baixinho.
O teu ventre sofre de mim.
O meu corpo sofre da tua plenitude.
És um beijo volátil do
tamanho do mundo.
Amo-te amei-te amar-te-ei
de todas
as cores dispersas.
E assim o meu vento
será sempre o teu vento,
feito de ondas de mar
da altura dos meus sonhos, enormes!
Os teus clarões de beleza,
aqueles
que os olhos permeiam de mansinho,
são-me totalmente pérolas em mim.
És o meu tudo.
Na tua morada do adeus
viste-me e amas-me?
O meu olho esquerdo vocifera
mil razões para te amar.
Se o teu olho viesse de encontro ao meu,
e assim juntos dançassem uma
balalaica de tempos imemoriais!
És demasiado diamante para
te ter apenas em carvão!
És o meu diamante mais puro!
Um leve odor de paixão
que eu retirei dos teus cabelos
é-me companhia.
Todos os meus passos estão
possuídos de ti.
Vejo-te nas esquinas,
aquelas que me querem muito
pois são cruzamentos de vidas,
vejo-te na garra dos pássaros
que passam em debandada e gritam amor,
pelos céus fora,
pela noite fora.
Vejo-te aqui e ali,
e nos dois sítios
ao mesmo tempo.
E ousas chamar a isso
outra coisa que não amor?
Diamante
Há sonho em
fim de tarde domingueiro,
em cor estilizado
e forte de pessegueiro construído.
Há corpos que se escapam
a mãos acolhedoras,
tão longe
se afiguram em
meias sombras renascidos.
Eu observo toda a gente com a
paixão de quem não tem nada...
Tudo são pérolas e diamantes,
pequenos cristais translúcidos que volteio suavemente
nos meus dedos ansiosos de recém-nascido.
Da mesa do café onde me encontro,
janela fechada para todo o meu passado,
eu antevejo as torres
torneadas a marfim do meu presente.
E alegro-me com isso...
E sinto-me todo,
sinto todos os meus músculos
prontos para a acção mais rápida,
sinto o meu cérebro capaz
do raciocínio mais genial,
mais impossível...
Oh! Não fosse eu apenas eu,
e poderia ser tudo e toda a gente!
Vejo mulheres a quem
gostaria de me dar,
vejo corpos que gostaria de sentir com
a palma da minha mão dourada,
vejo lábios
que gostaria de aflorar
com o meu beijo eterno...
Dia e noite
Sonho com o meu Deus de prata
agigantado ao Infinito!
Consumindo
vidas em suaves embalos de torso despido,
com o Sol a dourar tudo,
fileiras intermináveis de prazeres
a enternecê-lo e a embriagá-lo.
Apoteoses febris de luxúria !!
E eu a dirigir
uma orquestra de mil instrumentos feitos de sonho!
Não existem dobras nem rugas verdes no meu semblante.
Uma Rainha cristalizada e purpúrea levanta o véu
sobre o meu olhar...
Metempsicose Aptúndica
Ontem aspirei um sonho…
Envolto em malvadez e desencanto,
fui seguindo pela tracção d'O envolto em penumbra.
E quis ser generoso com a dúbia
presença do estranho sentir de sucção
que metamórficamente me percorreu o corpo.
Quis acrescentar que estava solto,
num percurso sonâmbulo de permissiviodade oculta.
No entanto,
fui interceptado pela razão omnítica
de acordo com a perda de censo que
me foi invadindo lentamente,
após longas horas de meditação em
volta de um sexo aberrante.
Depois,
foi a loucura que tomou conta do
meu ser.
A pouco e pouco senti-me invadir de uma
loucura corporal tal
que decerto estaria flutuando
num qualquer antro derivante do Astral.
Era,
sem dúvida,
a Permanência Newtoniana que discorria a espaços.
Cruelmente real e aleatória que tal.
Por essa altura senti-me
ameaçado por algo exterior que não sei o quê.
Acordei...
...na minha cama, no meu quarto, na minha casa
num corpo que não era o meu...
Z
Filigrana pura
esvoaçante ao vento.
És bálsamo expelido de
mim para fora,
com candeias azuis e vermelhas
encastradas no teu seio desnudado.
Fere-se toda a lucidez
quando te toco;
um tilintar de copos vazio
que ecoa na minha mente
asfixia o teu olhar.
O teu olhar vermelho…
Com fumo à mistura,
em confusão estrambótica
de sensações sem sentido,
que a máscara me escapa
para todo o sempre.
Arde volátil todo o querer que
é antigo e de renome.
Uma mulher pura...
Uma recordação...
Estreito o teu sonho
no sonho do meu Amor.
Vejo a tua voz que me acaricia
palavras suaves de sono,
em lençois brancos de paz.
Esses olhos em sombras projectados,
com as formas todas
vertidas nos teus lábios entreabertos.
O som de um beijo que cai
no fundo suave do corpo…
SMYNTHEUS (1)
dorso
torso
fim que ele escolhe
bum…
ar
vertigem
indício de côr
som
tom
a estrela é grande e foge-me
bum…
e
las
ti
ci
da
de
amena
do
fundo
da
alma
bum…
ouvem-se vozes de cantores mortos acima da
linha do horizonte decapitado pelos prédios altos…
vazio
sonho
narciso florido
explosão dupla
bum… bum…
(1) SMYNTHEUS é, em Antonin Artaud, Apolo Smyntheus: que é o
excedido, o extremado, o ponto de ruptura, o abcesso maduro.
THX
Sofia Bravo
OSSÂNICO
E se eu fosse a mais bela de todas as mulheres, o mais doce de todos os seres, a mais terna das criaturas, o que faria com tanto? Se não te tivesse a ti para me contemplar! E no entanto… não sou tudo isto, não sou nada disto, mas tu fazes-me sentir como tal. E tenho-te por efémeros momentos em Luas já altas, sendo a despedida sempre tão dolorosa e desajeitada. Parece prenunciar um fim enevitável, quando o que eu quero é apenas existir em ti!
A minha doença é incurável longe de ti, porque a minha cura…és tu!
E procurar-te-ei na impossibilidade, procurar-te-ei na improbabilidade de um para todos os seres humanos à face da Terra! Que vago!… Que vazio! E mesmo neste vazio rebusco-te, vasculho em tudo, e só vejo parecenças contigo. E nesse incessante procurar deparo-me com a infeliz solidão de quem ama… a solidão é sagaz… e descubro que ela esteve sempre aqui no meu peito, e que se instala cada vez que tu estás ausente, ocupando cada vez mais espaço á medida que o tempo passa.
E dói-me na Alma a minha memória!
A recordação das tuas mãos a sufocarem-me de desejo, essas carícias a corromperem com o teu cheiro a minha malvada inocência, esse alecrim e malva que temo tocar porque são o meu veneno. Esse veneno do qual saboreio a maldade de não te ter, de ser, de pertencer…
Este maldito destino, infeliz prisão de vazio que me deixa apenas flutuar nas minhas emoções desmedidas e incoerentes, para assim me deixar exausta de tanto desejar, essas malvas, esses lírios negros em que quase fui tua.
A confusão
reinou outrora
no sonho cheio de Poesia.
Hoje,
o amanhecer é bem mais confuso
e a alvorada tarda em chegar.
As palavras....
são o meu revólver,
e eu dou-lhes lustro cada vez que penso em puxar o gatilho.
O projéctil vai-me ferir,
como toda a incúria dos meus sonhos,
esses sonhos que tanto gozo tenho em medir.
O fim.
A minha única salvação
que reside na ponta desta pequena forma dourada.
Tenho no bolso o poder da vida e da morte,
e farei uso dele... em mim.
Antes,
vou-me descalçar nesta rua cheia de calhaus
e senti-los debaixo dos meus pés
com toda a intensidade que me é possível ,
e esperar que a dor me acalme o juízo,
que não tenho.
Os joelhos e os dedos dos pés também em peregrinação se lhes juntam,
e agora as mãos e o tronco.
Arrasto-os no chão húmido e molhado pela chuva
desta noite Invernal.
Sussurro,
porque não tenho voz para toda a revolta
que é a dor do meu corpo,
que é a Alma já muito
ferida no tormento negro dessa minha revolta,
alma amarga como fel,
invenenada nesta angústia,
sem fim,
sou eu
própria,
que se aqueçe nela
como quem se enrola num véu negro de Igreja
e o usa contra tudo o que é exterior.
É este o legado do meu descontentamento.
Este é o legado da minha dor.
As palavras são o revolver,
que dou lustro,
enquanto penso em puxar o gatilho.
És um jardim fechado
Abandonado ao vento.
Sento-me num qualquer dos teus bancos,
E não, não ficarei sentada
Caminharei antes, por entre as tuas árvores.
Olho as nuvens apressadas
Que logo se perdem nas folhagem das árvores
Que me cercam, e o vento que as agita
agita também um rodopio de folhas
Vermelhas, caídas no chão
Elevando-as até á minha altura
Numa espiral sonora, própria das folhas de Outono
Rodopiam à minha roda,
elevando-as e esmorecendo na canção do vento frio de Outono
O riacho corre sorrateiro
Por debaixo da ponte de madeira
Salteando as pedrinhas,
num sapateado alegre e distraído
Molhando gentilmente as raízes que repousam como
Mãos cheias de longos dedos na beira do riacho
Nas margens, o verde do musgo é tão alegre
Que dá vontade de gritar com ele
Toda a sua cor sublime de vida
E caminharei com os pássaros
A contarem-me histórias fúteis
A contradizerem-se numa estridente algazarra
Por entre este jardim fechado
Habitado pelo vento,
O vento sopra e espalha no infinito
O aroma silvestre dos deliciosos frutos
Que colho e saboreio como vinho
Em bebedeiras de vida.
Anjo perdido,
procura uma sombra
anda fugido,
algo que o esconda
de rosto triste
este sol que queima
alma dorida desta realidade que teima
desta vida sofrida
que arrogante surge
perturba as Crianças
e o seu tempo que urge
sacode-lhes a esperança
e deixa que a mente lhes turve
sem pensamentos nem Alma
eis o Diabo que surge.
Vida impossível
em todas as suas sinuosas farsas
as minhas lembranças atraiçoam o destino
que em caprichos é insuportável
Esta aguarela viva
que se pinta de caprichos
da mão de um louco qualquer
tela velha cheia de rugas
imperfeições da loucura
que atormenta cada instante meu
da minha vida esborratada
cheia de erros
cheia do nada
tu escreves em folhas novas
e pintas em novas telas
aquilo que haveria de ser
o meu Mundo
cheio de rosas
mas eu sou Violeta
e as violetas
morrem á chuva.
As tuas lágrimas
ferem, de uma forma atroz
molham-me de angústia
neste vazio...
na tua ausência.
e quem chora sou eu
e de angústia estou encharcada.
Letras Douradas
Letras douradas em pergaminho Violeta
Caras pintadas num teatro maneta
Portas Altas De fronte de um Altar
Negros hábitos encolhidos a chorar
Torre mística da Igreja Matriz
É lívido o sorriso que me diz:
-É por ali que tens de ir…
Não creio que seja feliz.
(Estática, tento esconder a minha voz)
Sou um ser híbrido que se molha
Com a dor de um ser feroz
E mata sem pudor o sentimento
Num agreste vento de Tarot maior
E que de repente
Sente algo que a perturba
E sou eu própria a sentir-me só
Adormecida num vale de Lágrimas
A chorar o belo a detiorar-se
A magia perdida
O encanto disperso
Na solidão que ninguém sente
Um sopro veloz de angústia
Dissipa o Amor verdadeiro e cristalino
Como as pedras preciosas desfeitas em pó
Ou as penas de pavão que já não voam
Que são cortadas para belos efeitos de velório
A sete palmos da terra do cheiro intenso
Da água putrefacta dos cemitérios
É só...
Está só…
Ainda não se libertou da cruz do calvário
Que é a da perda
Que é o corpo sem vida
Que jaz inanimado e sem amor
Como uma rosa vermelha
Que morre sozinha
Sem ninguém a contemplar a sua doce ternura
Sons de sublime perícia serpenteiam no sentimento fúnebre...
Vozes em lamúrias docemente sentidas de angústia perturbadora
E que gritam em uníssono represálias de uma sinfonia ardente
Falam de ódio porque não lhes é permitido Amar
Anjos de espadas procuram o ultriz
Oferecem recompensas a quem lhas vingar
Na lua brilhante de prata
Centelhas velozes de medo
Torturam e mutilam o Amor
Desse ser híbrido a quem não é permitido Amar
Poderei eu ofertar-lhe as memórias que me perturbam?
Poderei eu esquecê-las?
A Árvore do Poeta
Esse poeta,
feito de retalhos,
com a fisionomia
marcada pelos defeitos e virtudes
das paixões e angústias.
A face expressiva,
entalhe de vivências.
As várias faces.
A alma de cinza
ou verde de sempre criança,
na busca da inocência
ou sabedoria
do sonho sempre em azul.
As jarras onde crescem caules contêm a essência da poesia.
Dos caules
pendem folhas escritas
que voam ao vento
e voam muitas vezes
sem que ninguém as leia ou contemple
e passa o tempo
e elas caiem
como as vivências que mudam
e acabam no chão fértil do pensamento,
alimentando essa mesma essência
de alma
de poeta
neste ciclo.
Dor.
Sangue.
Representando assim o Amor.
Essas raízes bem presas ao chão
do Mundo terreno,
das paixões,
nesse amor de pássaros e vento
em voo livre,
de rochas que
estão sempre lá na sua velhice antiga,
com os minerais a serem a essência da terra
sempre mutável para nós,
que tentamos diluir nos elementos
do pensamento
tornando-os pó,
que se molda
de acordo com a vida,
e que eu quero diluir,
transformar,
ser.
Da’ Wah
-
Sinto-te...
no correr do meu sangue.
No desejo ofegante das lembranças quentes...
nas vozes, nos cultos sagrados.
És impregnado de fantasia,
tenho-te condensado,
no formol dos meus sentidos
em todas as minhas moléculas,
o teu ventre quente...
Todos os meus sentidos apurados, para te sentir melhor.
-Ahhhhhh!.........
In...
Já nada... do que foi real, o voltará a ser!
Ficará para sempre
nas catacumbas carnazes
do que jamais será...
Teri...
Derrama encanto,
mesmo em terras outrora adormecidas
Despertando um extinto sentido...
-Ahhhhhh!...
Or...
Abismo
Império perdido
Sétima dimensão
talvez entre a vida e a morte
e digo-te...
Esses teus lábios...
me beijarão!
O teu corpo...
se dará ao meu!
Num tal impulso de terror,
que perder-se-á no espaço,
nessa sétima dimensão!
Resgato-te
pelas pontas dos dedos.
I...
II...
III…
Rasgo e...
Chão!
Espuma, convulsão
Dilação, conquista
Grita, geme, fala,
caminha, anda, trás
Vem...Vem...Vem...
Onde!
Tardo na colina...
no vale que desconheço
na fonte perdida
Q ninguém viu
Nasceu ontem
Com a chuva de Inverno
Pura... escorre...
Dissipa
bosques molhados
Água, terra....
Barro.... Argila....
Tranquila da sua existência perdida
Passiva, crua, fria...
Existência ocasional
Capricho...compromisso
Meio de mim
se afoga em ti
à deriva, esconjurada
entranhada,
estreita
Quer endireitar-se
Assim...
Lunática obsessão, Rigoroso....
Vórtice, luping
No memorial dos sentidos
Infindável saliente
proeminente no passado
Impossível ser uma previsão futura
são os sonhos que me lembro
de não esquecer
são tudo o que tenho
no futuro
que não é meu.
Ainda...
Eu sei... aquilo quero é apenas o que quero, o meu desejo deste momento é completamente irreal. É precisamente esse o fascínio do desejo, ou não fosse eu o que sou, e deixaria de desejar o impossível.
O irreal é idealizado por mim até ao pormenor, para que o desejo seja aquilo que quero.
A vida subtilmente adoçada com o irreal.
Algo que muito desejo, tem as qualidades de um ser prefeito, que me parece só em mim existir, porque a perfeição não é universal.
O perfeito não se materializa!
Longínquo sentimento de razão que me traria algum alento sem sinceras esperanças busco uma coisa invisível, sempre ao longe.
Tenho nas mãos os cardeais de um tesouro, que não se situa neste planeta!
O Amor é um Beco sorvedor dos meus mais secretos lamentos, geometricamente medidos a partir de cardeais inconcretos, na dualidade de existências.
São espectros do sentir de fera mansa, que se quer equilibrar nas diagonais do destino, e aos tropeções perde-se em becos sem saída, No Exit.
Sou equilibrista nato que bamboleia na corda laça da razão, infinita teia crua da tristeza que se constrói na Alma, abafando-me assim o pudor, enlaçando-me com gestos mansos, deixando-me fraca com tanta ternura, vulnerável nas mãos de um predador.
Eu... estrambótico ser alado de sentimentos cruéis…
És a Obra-prima da minha loucura frenética em desespero melancólico.
E não te mereço nem por um só devaneio.
Sinto-te como um... mero frio, que me tacteia a espinha... dissipando-se em suaves delicias, ornada de magistrais prazeres, fulcro total, és tudo!
Eu, esqueleto trémulo, ténue, de memórias em vórtice, fragmenta-se em tremor no epicentro poeirento da tua memória. Espiral incontornável de sensações efémeras, ansiedade...
Enrolam-se por mim acima, com braços, nádegas, coxas, as mãos nas minhas, estas que desejam esculpir o torpe barro dos sentidos, levando-o depois para a ressurreição. Mas, para ti sou apenas a expressão de um maneirismo feito á toa, inobservante!
Lorelei
Obra-Prima da minha loucura frenética,
fluir de desejos melancólicos!
Ternura...
Lívido ornamento dos sentidos,
quer-me persuadir!
Nua...
Pérola Epiteal reflectida no espelho,
loucura inquietante!
Ossos...
Esqueleto trémulo, ténue de memórias,
cambaleia por entre destroços!
Morta...
Inspira as carícias fugazes
desse corpo que te quer possuir
na ternura do predador.
Ele é teu... Agora!
Tumba...
No turbilhão da confusa
dualidade das existências.
Penumbra...
Negro.
Albina e Cega
Morta e Des'Almada
Náufraga
Suspiro...
alívio que reconhece a esperança.
O sopro...
É o Vento dos Homens.
Estou enleada no lodo.
Mas talvez a superfície me encandeie.
Tenho a meus pés, os alicerces de uma grande obra.
Tenho a Alma em construção.
A ruína é majestosa, requer cuidados.
A construção... Perícia.
O mestre será virtuoso.
O propheta, cego.
O Deus, absorto.
O Rei, Imperador.
Já que a confusão reina, pondo e dispondo aos olhos da minha impotência, não é altura para provar nada a ninguém. Não há nada a provar! As provas ficaram para trás, assim como as escolhas acertadas; ficaram silenciadas nos presentes que já tiveram lugar. E lá ficaram!…
A vida é um movimento incessante, e quando acelera rumo ao nada, a vaga é tempestuosa, forte, incontornável , toma-la à força! E a nossa desgraça… A fadiga silencia-nos. Deixo-me então ir para um Futuro que ainda poderá ser claro, e descobrir a direcção a tomar.
Autómato andrógino fatigado.
Toda a permanência torna-nos estáticos. Somos todos iguais em qualquer estaticidade. Não nos desembaraçamos do cordel sempre esticado da virtude. Não nos desenlaçamos desse cordel demasiado esticado que nos começa a marcar os tendões, começando assim a falta de força. Largo a meada e tudo se desenrola… Rasgo por força o cordão umbilical e toda a pele que reveste o coração. Rasgo… pela força da mudança.
A mudança!…
O Novo... Paladar, Olfacto, Presenças…Vasculho e Rebusco na cumplicidade o que desconheço, e encontro coisas que quero só para mim. E nado fundo, nesse Futuro que ainda há-de ser menos turvo.
Vaga fria...
Fria de desconsolo...
Desalento.
Lancinante…
Cássio
Dormente!
Feto vacilante no recondito útero do Mundo.
Dormente!
Estático
Vacila e cresce numa redoma,
agita-se no seu interior.
Vacilante
Útero estático,
Em constante movimento,
cresce numa redoma de inquietude,
esbraceja de braços cruzados,
apertados de encontro ao peito.
Perímetro cefálico,
córtex condicionado ao Rei dos sentidos:
A Visão...
Enquanto ela domina,
todo o Mundo permanece encandeado na sua própria beleza.
A mente dormente,
encandeada em estímulos passionais.
Sente a proximidade do vácuo.
Um infinito impalpável,
longínquo...
Dominante!
Os sentidos são limitados
pelo perímetro da percepção, imediata!
Isolação.
Talvez nos abstraia do exterior.
Talvez torne possível a absorção do real.
-Não há progresso sem acção!
Sem interacção com o Exterior!
-Fecha os olhos!...
Percebe o porquê da nossa impotência!
Isola-te.
De qualquer comodidade
ou de outra existência paralela à tua.
No vazio...
Perpetua a procura de algo,
não sabendo exactamente o que é.
Nada me satisfaz.
...sinto-me completamente anestesiada.
-Que loucura tão contida!...
Loucura Lúgubre
dos meus sentidos mais rebuscados.
Tudo me parece tão pequeno,
quase tudo deixa de existir,
nada se materializa em desejo,
é tudo vago...
Amplo...
sem intensidade.
-O que se passará comigo?
Será que a ciência explica?
... A metamorfose do espírito insatisfeito,
em abstracção completa?
Desmaio em mim!
O Outro eu...
que ainda se mexe,
cutuca com uma Vara
Num Corpo...
caído no espaço vazio.
Só...
É-me difícil viver com ela,
essa companheira insalubre,
completamente insalubre
para os meus sentidos
bem apurados na loucura sentimental.
Dentro da minha Redoma,
estou fisicamente condicionada,
os sentidos parecem perder as
estribeiras!
- A qualquer Momento...
Suicidiária
e outros poemas
Bórgia Ginz
Suicidiária
Escrevo em desalento fortes sonhos castrados por mim
Incógnitos de cor verde que me penetram para logo me
Despejarem dor e acidez nos cabelos velhos e deslavados
Que eu sei serem meus, na escuridão do meu ventre só
Estou ameno, colhido na turva água do dia findo
Finalmente no arcanjo que chora com o gelo
Nas suas mãos doidas de espinhos a fremir, ferozes
Pilares que se encontram adormecidos por baixo dos corpos
Dos olhos de jóias perfuradas na noite pobre do meu querer
Enfeitas-te, oh, querida noite que tanto foste travo e testa
Cheia de rosas em semblante de oiro e que agora me
Deixas virgem de cor e som, escorregadio na neve
Eu vejo a tristeza dos meus queridos braços e pernas
Tatuados por amigos de cinza nos olhos febris
Eu vejo a amizade que os meus membros têm por mim
E que eu não aconselho ao fim da mármore alta do Judeu
Eu vejo homens violados por mulheres imaginárias
Nas esfíngies violentas do adeus sonâmbulo
Na noite adocicada do teu encolher de ombros
Nascem os tornozelos dos anjos cantantes
Das misericórdias supremas
Em fins de tardes coçadas por mãos de Deusa
Cruel e anónima, com os seus dedos esguios
A esvoaçarem nos campos de ervas cheios
Como os olhos dos felinos que se atravessam
Nas estradas onde não passam carros
Como os mendigos de pão no bolso que se afastam
Em ondas de pernas brancas e lisas no escuro
Como o suco de sexos usados em quartos de
Paredes vazias com os mirones entrecortados
Como a execução gráfica do condenado em páginas
Adoradas e torpes como violetas e narcisos murchos
Como as veias que sangram e dão vida a corpos
Nus que se estendem pela manhã nascente
No fim do mundo agonizante que quer pêndulos
No seu sexo guarnecido a jóias milenares
Eu sei que nasci para viver todos os dias
Com as mulheres que eu não conheço todas doidas
A fazerem carícias nas grades do meu calabouço suspenso
No ar imundo que eu respiro para morrer
Os pássaros que eu tenho no meu peito com cabelos
Não são meus nem eu quero aprisioná-los com
Palavras doces e mãos abertas em amor na ponta dos dedos
Quero-os a pisar terras que eu não sei
Que eu nunca sonhei mesmo depois de ter sonhado
Tal como as sombras que se abatem por sobre as paredes nos
Finais de tarde esquecidos e não violentos por serem sóbrios
Queria poder aspirar o odor dos gatos quando estão com cio
E em cima dos montes altos suspiram amor a cobrir-lhes o pêlo
Há na fome do mundo todo um olhar vazio que se detém
Sobre a minha nuca e eu piso com os dentes que se afastam
Amantes longos
A alavanca puxa o tronco caído,
verme latente a três dimensões,
que se dissemina pelos poros que assombram
beijos de cores disformes que se afastam.
Anjos supremos diletantes em esforço
anunciam a queda fusil de tempos novos
lestos alheios de antas vazias.
Nervocide beija o amante morto em furo.
O amante puxa a alavanca que se anuncia feroz
e permanece em força bruta entre os seus dedos de carmim.
O seu corpo beija Nervocide pela metafísica
e percorre os elos que faltam na obscuridade latente
entre olhos vazios furos de morte e espasmos senis.
As peles deixadas ao acaso sussurram perenes.
E a Bela deixa cair os braços pelos tendões.
Plano inclinado
Lamento sempre o que vem
e o que te tem
para bem longe do Unicórnio dourado
da minha lonjura.
Esta doce estranheza que embarca
sublime rumo ao monstro
que se deita comigo no fim de mim.
No fim é sempre plano.
Penetramus é o assombro do real inquebrável!
Viajo no encalço do tempo
meio perdido na imensidão do buraco
que nasce a meus pés
pelo movimento dos meus pés
que me enterra enfim sempre aqui.
Este impenetrável assombramento
do que foi e nunca será
a absoluta conjugação da Pirotécnia.
No fim é sempre plano.
Penetramus é o assombro do real inquebrável!
Bronssi
Lon Min of tuly
Ie donc par beltran
Ka ess kas et june
Ik tong pum pum
Sor per la fool des viles
Ik tong pum pum lokes
Dir fias el transksection
Jor lion filles et kas ess kas
Rimbaud loked in furt
Gonmeyer flip flop transisteur
Duct ca los tier
Ta beltran et ka ess kas
Venus of Kazabäika
Fora
O’, perco-me Toda!
Entro no Teu Dommynio de Sonho
e és a minha Funesta Maravilha.
Espero pelos Teus Anjos nos braços,
Gótticos Embates na minha Ventura,
e entretenho a minha Virtude
com os Tronos da Tua Pureza de Guerreiro.
A minha Mente é Tua Cama.
Aplicas-Te Duro na minha Coroa
e rolas-me nos Ventos do Nada para Bem Longe,
para a Lonjura.
E cá fico.
Perante O Negro do Tempo em que se Tornaram Os Teus Cabelos.
O’, perco-me Toda!
Enfio-me pelos Teus Pedestais Loucos em Fúria!
O’, perco-me Toda!
Vénus Caída
DRAMA ESTÁTICO A DUAS DIMENSÕES
ou
A PARAFERNÁLIA DO DESOSSADO
(pum)
Lanebt.
Quem tem os pós nos medos?
Lanebt.
Quem tem os pós nos medos?
Lanebt.
Fim
Dramaturgia litúrgica com arremesso de matéria
pesada na dilaceração.
Lamento diário a 5 rpm. 1 rpm=380º.r. Dissonância
concreta.
Sala senhorial com metafísica aberrante na
proporção. O encaixe dá-se
pela medula. Óculo transviado.
2º Fim
O homem podre afasta-se pelo meridiano.
A sala abate-se sobre a audiência.
Fim último
Em metamorfose oxidada, surge o pânico!
Lanebt, suspira de alivio!
Venus in Shadow
Mortandade elíptica
Vocês,
os mortos,
os que me rodeiam a pretuberância,
vão rastejar pelos lodos da fé
enquanto espreitam a oportunidade
de anteverem o meu sexo sagrado,
de lhe tocarem com os dedos de
esperma hediondo,
infecundo,
gangrenado.
Vão lamber os cotos pela lamúria
de serem tão toscos na celeridade.
Oh, homens castrados que nada
valem para além de um tiro!
Lamento-me de ser tão bem lapidada
no meio de vós,
animais da formatura
em rebanho.
Amputo-vos a sombra,
decepo-vos o cérebro quase existente,
aniquilo-vos o tempo que já vai sendo demasiado.
Adorarei saber o vosso sangue a escorrer pela calçada do cemitério,
depois do louva a deus que enterra os corpos e os leva
para o precipício de Abdalon.
Eu lá estarei, de pernas abertas e mãos em forma de adeus.
Venus of Kazabäika
Contos Normais
Bórgia Ginz
Sonâmbulos
Acordei tarde. Abri a portada de madeira da janela do meu quarto e vi como a noite se aproximava: mais alguns minutos e nada mais haveria do que a própria escuridão. Um sono fácil ter-me-ia rapidamente feito tombar por sobre a cama de lençóis desfeitos, mas quis ver até que ponto ainda dominava os meus músculos, e em verdadeiro esforço dirigi-me até à sala e retirei o maço de tabaco do bolso do casaco. Nada era para mim mais importante, naquele instante, do que levar o cigarro aos lábios e acendê-lo, até me envolver todo de fumo cinzento que por certo me afagaria a face ensonada. O rádio estava ligado. Mas não ouvia som algum. Dir-se-ia que todo eu repousava no mais inerte dos pântanos, amenamente frouxo. Regressei ao quarto e tirei do guarda-fatos um par de calças. Como elas pesavam! Senti os dedos, todos enclavinhados naquele tecido poeirento, a rangerem como guizos ferrugentos, entorpecidos. Sentei-me na borda da cama e fiquei a olhar as manchas de humidade nas paredes do quarto. Os ombros dobrados, voltados sobre si mesmos, como se fossem peças defeituosas de uma máquina qualquer, pareciam querer deitar por terra todo o meu corpo mole e doentio, até tudo perder o seu significado e eu fechar-me no aconchego da minha própria solidão. O meu vazio não tinha matéria: perdia-se a vontade no sono da carne.
Quando saí já a noite tinha inundado toda a cidade naquela ausência de luz que ilumina todas as coisas de uma forma mais pura. Caminhava pelo passeio, meio encostada às paredes dos edifícios, como se me precavesse de uma qualquer recaída que me fizesse desfalecer e cair. Os meus olhos perscrutavam em redor. Mas não viam nada. Toda eu repousava no mais inerte dos pântanos, completamente frouxa. Mas continuei, convencida de que estava a caminho. Observei as montras iluminadas em meu redor, cheias de luz a fazer-me cerrar os olhos e repletas de coisas inúteis que toda a gente vê mas realmente ninguém quer comprar. Apressei o passo. Senti-me impelida para a frente, em direcção a um desconhecido, tão desconhecido que no entanto eu sabia tão bem todos os seus contornos, a ponto de o ver bem à frente dos meus olhos. Gritei com todas as minhas forças; um grito sujo, imundo. Mas ninguém o chegou a ouvir: a voz entalou-se-me nos dentes, e dei comigo parada no meio do passeio, com a boca meio escancarada, asfixiada, desfeita pela angústia. Não! Não voltaria àquele sítio de maneira alguma. Não quero! Senti o quão baixo tinha descido, mas vi bem também como o meu sonho voltava a adocicar-me a língua com uma vontade tão livre que me senti forte, magnânime, única. Andei durante alguns minutos, pausadamente, desfrutando uma sensação que há muito me deixara. Até que me encontrei mesmo em frente àquilo que mais temia. A porta erguia-se alta e direita. Foi quando me apercebi que o grito estava sujo... de sexo.
Peguei no auscultador do telefone e lentamente comecei a marcar o número. Esperei alguns segundos. O sinal de chamada parecia-me distante, exageradamente longínquo, como se eu não estivesse ali; nem eu, nem o telefone, nem o mundo.
- Estou..., fez-se ouvir uma voz.
- Sou eu, repliquei, já pensava que não estavas.
- Pois... Acordei há pouco e estava no quarto.
Peguei no telefone e aproximei-me da janela do meu sétimo andar, donde fique a observar as pequenas pessoas parecendo-me tão insignificantes, tão sem sentido.
- Também me levantei tarde. Hoje foi horrível. Ela não estava de acordo com nada do que lhe dizia. Discutimos muito.
- Vocês não podem continuar com essas coisas, interrompeu ele. A continuar assim prefiro nem me levantar.
- Eu já não controlo muito bem a situação. Bem vês, ela é minha mulher, só que... ela revolta-se demasiado.
- Compreendo... Quer dizer, não compreendo nada: eu já não lhe interesso?
- Sim, penso que sim. A situação é que a aborrece, e sabes como a noite apesar de tudo a atemoriza.
- Mas ela vem ou não vem?
- Sinceramente não sei. Penso que sim. Provavelmente passará...
- Espera, estão a tocar, vou ver quem é...
- Depois volto a ligar. Adeus.
Ele desligou o telefone, ao que logo o segui. Voltei para a cama.
Ali estava ela. E eu continuava com a mesma sensação de dispersão, de ausência, parecendo mesmo que ela própria aumentava todo o meu mal estar. Olhei-a nos olhos e no entanto foi como se não a visse de todo, pois ela confundia-se com a minha própria sombra reflectida na parede. Quis dizer-lhe como gostava que ela estivesse ali, como tinha esperado todo o dia que ela aparecesse, mas não era verdade, e a cama ainda desfeita parecia não me deixar mentir. Ela disse qualquer coisa a que não liguei. O que teria sido: um cumprimento, um adeus? Sentei-me na poltrona e ali fiquei a olhar para ela, com o cigarro meio fumado entalado entre os dentes, com as pernas cruzadas em gesto de fuga. E foi então ela falou e eu ouvi tudo. «Olha, eu quero-te, todas as noites, noite após noite, sempre mais e mais, só que... eu não sou apenas um corpo, sinto as coisas quentes demais...» Não quis ouvir mais nada. Levantei-me, com as mãos trémulas cerrei as cortinas da janela do quarto, dirigi-me para a cama e sussurrei: «Despe-te...» Ela hesitou, e ali ficou com os braços pendentes como moribundos, semelhantes a corpos executados. O quarto estava agora cheio de um barulho ensurdecedor, vindo de todos os lados, dos locais mais escondidos e inalcançáveis. Eu não compreendia a origem de tanto ruído. Tinha desligado o rádio e de fora não vinha som nenhum pois a janela estava bem fechada. Num relance percebi a origem de tanto barulho: era ela que me dizia qualquer coisa. «Não faças isso, não assim, tenho medo de estar aqui contigo, de noite, só contigo. Eu quero estar contigo, mas de noite... também quero estar com ele, vocês...» A minha cabeça latejava, possessa de um silvo agudo nauseante. Senti-me submergir nas águas lodosas de um pântano, totalmente frouxo. Consegui chegar à sala. Levantei o auscultador do telefone e lentamente comecei a marcar o número.
O equívoco
Ali estava eu. Ofegante e completamente afundado na enorme poltrona do quarto encoberto em penumbra. O corpo dela jazia infielmente naquele pedaço torpe e cruel de mim, no meio do torpor obsceno dos lençóis em desalinho. Um fio de sangue sulcava a sua face esquerda, parecendo antes um golpe suave de baton que uma mão nervosa fizera perturbar a brancura da pele. Matei-a. Mas tive um bom motivo. Matei-a antes que ela me matasse a mim.
Nunca a amei de verdade. Era sempre ela que exigia uma certa auréola de maravilhoso a inundar a nossa relação, os nossos passeios, os nossos beijos supostamente inflamados. E eu olhava para ela e fixava os seus dois olhos asfixiados de tanta paixão, que não me restava outra hipótese que não a de tentar um amor que eu sabia impossível. No fundo, ela era uma mulher adorável que muito dificilmente eu conseguiria magoar. Tinha passado um ano desde o primeiro dia em que a vi, totalmente encharcada no meio do passeio a olhar o céu enegrecido, enquanto à sua volta uma multidão de pessoas se acotovelava para tentar fugir à bátega de água que se abatera subitamente sobre a cidade. Também eu não tentara fugir, de maneira que em breves segundos apenas eu e ela ficáramos ali, sem nada para dizermos um ao outro, mas felizes por não estarmos sós. Quando nos apercebemos estávamos os dois bem agasalhados a beber uns cálices de Porto, no aconchego do meu sótão. Descobri que ela estudava Ciências Biomédicas no instituto superior da cidade, e que falava fluentemente francês. Não foi difícil combinarmos um encontro, delicioso, que tornou fácil um ainda outro encontro, e mais outro, e mais outro... O tempo passou e agora vivíamos num apartamento pequeno que alugáramos. Não posso precisar como tudo se começou a precipitar. Apenas sei que um dia ela chegou ao pé de mim e me perguntou se poderia ir a uma festa com umas amigas. Eu conhecia todas as suas amigas, o que me fez achar a ideia interessante, pois já não era a primeira vez que fazíamos uma farra juntos. “Gostaria de ir sozinha!” Mas claro! Que ideia a minha! Era óbvio que ela pretendia ir sozinha! Só que eu, no meio do mais estranho torpor, tinha partido do princípio que estava incluído nos seus planos. “Claro! Claro!...”
Nessa noite não me senti na melhor das disposições, pelo que afastei a ideia de sair também. Tentei ouvir uns velhos discos que me pareceram extremamente enfadonhos. Não tardou a aparecer uma ligeira dor de cabeça. Tentei ler uns quantos livros que também não me interessaram por aí além. Sentia uma enorme náusea a percorrer-me o corpo; algo que me fazia tremer as mãos de uma maneira inconcebível, diabólica. Deitei-me na cama, onde permaneci durante horas, tempo em que não parei de me revirar de um para o outro lado, envolvido pela imensa escuridão do quarto que me apertava o peito. Não parava de pensar nela. O medo daquela solidão era bem mais forte do que o desejo de estar só. Não conseguia parar de pensar que fora derrotado por qualquer coisa que desconhecia, algo que tinha uns contornos completamente indefinidos, abstractos. E era exactamente o facto de não saber o porquê do meu choro que me confundia, ao ponto de me atormentar até aos cabelos. Tive que me levantar. E foi assim que saí. Tinha por todos os meios de encontrar uma paz que se me escapava. Talvez o frio da noite me restituísse o semblante ameno e calmo. Andei durante algumas horas, em que fui fumando os cigarros uns atrás dos outros, pois a caixa de fósforos tinha chegado ao fim. As minhas mãos pareciam possessas, dominadas por uma força, um nervosismo que não conseguia controlar. Tremia de frio. Ao longe vagueavam uns quantos bêbados, completamente embrenhados na sua loucura gratuita, alcoólica. Pensei que um copo me iria aquecer. Talvez o calor de um bar me confortasse por alguns instantes. Entrei no primeiro que encontrei. Encarei com dificuldade o tipo que estava à porta; ele olhou-me de cima da escada, e não sei porquê senti-me imensamente culpado, como se não tivesse o mínimo direito de entrar ali. Eu era um desesperado. Lembrei-me que já tinha estado ali, uma noite, com ela. A recordação bateu-me forte, atingindo-me bem dentro do crânio, e o mal estar chegou célere, sob a forma de um enjoo violento. Dirigi-me ao balcão e pedi um bock. Não foi preciso muito tempo para que me pusesse a olhar em redor, num verdadeiro esforço de a antever. É que tinha colocado desde logo a possibilidade de ela estar ali! Percebi então que não entrara naquele lugar, não tinha saído de casa e ido até ali por mero acaso. Vilmente, estupidamente, eu procurava-a! Acabei por vaguear pela cidade durante a noite inteira. Quando cheguei a casa amanhecia. Abri a porta muito devagar. Ela dormia, muito suavemente, completamente estendida na nossa enorme cama de casal.
Essa noite foi o início do meu declínio. Um declínio lento, muito lento, mas inevitável. Até que comecei a ver aquela mulher a assustar-me enquanto progredia nas suas pequenas coisas e todas elas me transmitiam o desengano do sentir. Os pequenos gestos começavam agora a tornar-se grandes afrontas, e tudo sempre em espiral, a crescer enquanto observava o tomar do café, ou o erguer da perna para a suave entrada no autocarro. Deitava-me sempre consciente do touro que se espreguiçava à minha volta, por todos os lados, que me lambia os cotos muito lentamente, com sevícias de meretriz rebuscada, longa, toda empanturrada na sua prolongação, no vício fremente de desavergonhada. E todas as noites comigo! De dia, perseguia-a. Mas de noite ela estava sempre comigo! E eu pus-me louco, até tudo sentir na espinha do meu cérebro, até a confusão começar a degradar-me o raciocínio e a acção. Entrara no labirinto do não-ser. Aniquilava-me. Até que tudo acabou na ponta de uma faca.
Foi só isso que aconteceu. E ali estava eu, sentado na grande poltrona. Ela, jazia mais bela do que nunca, parecendo antes que um sono profundo a tinha alheado de mim. Levantei-me. Movimentei-me com dificuldade, a penumbra não me deixava reorganizar a ideia que tinha sobre o que acontecera ali, e com o mínimo cuidado saí.
Dei uns passos pela rua. A noite já tinha chegado há muito, pelo que não foi difícil ocultar-me dos olhos acusadores das pessoas. Também elas me exigiam razões. Mas ao mesmo tempo tudo me aparecia irrisório, cruelmente banal. Via agora como a realidade chegava até mim de uma maneira enganosa, sem propósitos de veracidade, como a fazer-me sentir culpado por ser eu e não outra pessoa. Olhei em redor, enquanto acariciava a faca ainda bem quente nos bolsos húmidos de sangue, no intuito de encontrar um rumo preciso por entre as pessoas, mas em vão: continuava tão indeciso como antes. Decidi entrar num café. Pedi café. A empregada sorriu-me, possivelmente como costuma sorrir a todos os clientes que entram, mas eu não era um cliente qualquer, e a sua face colou-se imediatamente à face de Ana, toda ali, sem sentido. Arrependi-me de ter entrado; afinal ainda não estava preparado para enfrentar a expressão das pessoas. O aspecto do líquido negro e quente que fumegava à minha frente não me agradava de maneira alguma, parecia-me exageradamente viscoso, e desejei com todas as forças que contivesse um veneno qualquer que me fizesse alhear de tudo, finalmente. Tomei o café. Por sinal até me soube bastante bem.
Quando saí estava possuído da mais pura angústia. No lugar do meu peito havia agora um imenso buraco, não um buraco vazio, mas um extremamente pesado, denso, como se tratasse antes de uma bola de chumbo aquecida ao rubro. As pernas estavam sólidas, petrificadas. Se espetasse uma agulha nos meus músculos decerto não sentiria nada. Era o fim.
Um indivíduo aproximou-se e pediu-me lume. Mal lhe via a cara, toda ela tapada pela mão que empunhava o cigarro nú e expectante. Procurei nos bolsos a caixa dos fósforos. Durante bastante tempo; os bolsos pareciam-me poços sem fundo. Acabei por encontrar a caixa e esten